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A etnia de Jesus

PAINTING OF RESURRECTED JESUS CHRIST,

Adam Jan Figel | Shutterstock

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 16/01/22

Lembrar que Cristo se identifica com todos nós pode nos ajudar a recuperar a consciência da ternura de Deus por nós e pelo destino de toda a humanidade

Todo mundo sabe que Jesus era judeu, mas um vídeo* da BBC, sobre o aspecto físico de Jesus, e um artigo na Folha de São de São Paulo, sobre a “teologia negra” que busca uma releitura antirracista da Bíblia, ambos divulgados na época do Natal, mostram a oportunidade de uma reflexão sobre como enxergamos a etnia de Jesus. Os dois materiais partem de uma crítica à imagem de Cristo como um homem de feições europeias, pele clara, cabelos lisos, olhos frequentemente azuis. Os dados históricos sugerem um Cristo moreno, fisicamente muito mais semelhante aos atuais moradores do Oriente Médio. O Jesus europeizado é, reconhecidamente, fruto de séculos de desenvolvimento do cristianismo na Europa e da hegemonia mundial que os povos daquele continente, ou seus descendentes no resto do mundo, exerceram e continuam a exercer.

Enquanto alguns se escandalizam com o Jesus europeizado da tradição ocidental, outros se escandalizam com o Jesus enegrecido da teologia negra. Temos dificuldade de aceitar tanto a universalidade de Cristo quanto o apego afetivo que faz com que cada queira vê-Lo com feições familiares, que reflitam nossa etnia ou nossas referências culturais. Não percebemos que o primeiro rompimento com a pessoa histórica de Jesus aconteceu quando os cristãos aparentemente se “esqueceram” de que Jesus era judeu. Ao longo da história, frequentemente foi lembrado que as pessoas que, diante de Pilatos, gritavam “crucifica-o” eram judias, omitindo-se o fato de que o próprio crucificado também era judeu…

A histórica relação entre cristãos e judeus é complexa e contraditória. Recordá-la nos ajuda a entender mecanismos de dominação cultural e marginalização social, bem como os caminhos da solidariedade e de um justo relacionamento com o diferente numa sociedade plural.

O pintor de origem judia Marc Chagall (1887-1985) por duas vezes pintou Cristo na cruz usando trajes típicos da identidade judaica (o chale ritual talit, na Crucificação branca, uma das pinturas preferidas do Papa Francisco, e tefilins, pequenas caixas com textos bíblicos amarradas ao corpo, na Crucificação amarela). Queria recuperar a memória de que o homem que mudara toda a história do mundo pertencia a seu povo, perseguido e aniquilado pela perseguição nazista.

A visão teológica proposta pelo magistério da Igreja não discrimina os judeus. Pelo contrário, reconhece neles nossos “irmãos mais velhos” e, como lembra o Catecismo da Igreja Católica (CIC 595-600) lembra que os pecados individuais de algumas pessoas na condenação de Jesus à cruz não podem ser imputados a uma coletividade específica. “Devemos ter como culpados deste horrível crime os que continuam a recair nos seus pecados. Porque foram os nossos crimes que fizeram nosso Senhor Jesus Cristo suportar o suplício da cruz, é evidente que aqueles que mergulham na desordem e no mal crucificam de novo em seu coração” (CIC 598)

Contudo, preconceitos arraigados na cultura popular e interesses econômicos fizeram com que as comunidades judaicas fossem discriminadas e perseguidas. Foram associados não só àqueles que endossaram a crucificação de Jesus, mas também aos ricos que exploravam os pobres. Ora, existem ricos e pobres entre todos os povos, se existiram – e existem – judeus ricos, também temos que lembrar que, na história da Europa, nenhum outro povo sofreu por tanto tempo com a discriminação, a perseguição e até o genocídio.

Dizer que Jesus era judeu significa dizer que fazia parte de um povo com uma longa história de perseguições e sofrimentos.

Independentemente da etnia do homem que viveu na Palestina há vinte séculos, Jesus se apresenta como irmão de todos os seres humanos, na medida que todos temos um Pai comum. Nesse sentido, é justo e até natural que todos pensemos Nele com feições semelhantes às nossas – e que os artistas O representem assim: europeus com traços europeus, brasileiros com traços brasileiros, orientais com traços orientais, negros com traços negros, assim por diante…

O grande escândalo, para nós, deveria ser justamente o contrário: que alguns povos não consigam imaginá-Lo com suas próprias feições. Este é um sinal de que uma hegemonia cultural, que nada tem de cristã, está interferindo no modo como a fé é transmitida. Indo numa lógica totalmente inversa, muitos pensam um Jesus que não tem a suas feições, e sim as feições daqueles mais perseguidos e excluídos na sociedade. É interessante ler, por exemplo, O Auto da Compadecida, onde Ariano Suassuna (que era branco) apresenta um Cristo negro ou mulato (o texto permite as duas interpretações), que escolhe se mostrar assim justamente para chocar os poderosos e avizinhar-se dos pobres.

Por si só, nenhum ser humano teria forças ou méritos para encontrar a Deus. É a Sua misericórdia que nos permite encontrá-Lo por meio de Cristo. Quando percebemos a beleza da proximidade de Deus para conosco, da possibilidade de que cada sofredor se identifique com Ele, percebemos melhor também o Seu amor para conosco. É verdade que pode haver um desvio ideológico nessa identificação, como se Cristo não pudesse ser identificado também com as feições de povos que exerceram ou exercem a dominação de outros. O problema, voltando ao exemplo de O auto da Compadecida, é o caminho pessoal de cada um, a forma como empenhamos nossa liberdade na relação com nossos irmãos.

Em tempos de polarização política, ressentimento, raiva e instrumentalização ideológica, lembrar que Cristo se identifica com todos nós, particularmente com aqueles que mais sofrem, pode nos ajudar a recuperar a consciência da ternura de Deus por nós e pelo destino de toda a humanidade.

* Vídeo da BBC

Tags:
BíbliaHistóriaJesus
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