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Alianças inteligentes de casamento: para que servem?

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Shutterstock | Tikofff1

Feliciana Merino Escalera - publicado em 10/02/22

Inovação tecnológica permite acompanhar todos os passos do cônjuge em tempo real. Mas o lançamento do dispositivo reacende o debate: onde fica a confiança, ingrediente imprescindível para qualquer casamento?

Há poucos dias, apareceu nas redes sociais que algumas empresas estão trabalhando no desenvolvimento de “anéis inteligentes”. 

Trata-se de uma espécie de aliança de casamento que, entre algumas de suas funções, nos permitiria conhecer toda a trajetória de nosso cônjuge e os lugares visitados por ele, bem como suas localizações em tempo real (desde que ele a use também, é claro!).

Isso não é novo. Existem inúmeros aplicativos de controle parental que nos permitem saber onde estão nossos filhos adolescentes e saber se eles podem estar tendo problemas. 

Também existem aplicativos de rastreamento e localização que, em muitos casos, alguns cônjuges ciumentos gostam de usar para contrastar as informações que seus parceiros podem fornecer quando não confiam neles. O Google Maps já registra a trajetória dos locais visitados apenas com o nosso celular ligado e a função de localização ativada.

Sem entrar no fato de que a notícia é uma piada viral ruim, o assunto nos permite falar de outra questão muito mais interessante: a legitimidade ou não do controle dos casais como prova de sua fidelidade.

De fato, o uso da tecnologia como mecanismo de controle está se tornando cada vez mais preocupante com a adesão a sistemas de monitoramento da atividade e dos contatos nas redes sociais, cyberbullying, disseminação de boatos e o controle da atividade online.

Que consequências o controle entre casais pode ter? Podemos talvez limitar a ação do outro a partir de nosso desejo de encerrar sua vida em nossos esquemas? O outro agirá da mesma forma sabendo que está sendo observado? 

O que é realmente grave é que a lógica da confiança, fundamental em qualquer casamento, é suplantada pela lógica da suspeita. Lógica sacramental por lógica contratual. O outro não pode ser visto ou recebido como um dom, porque já está sob a suspeita de que pode falhar, nos prejudicar, por isso é melhor nos protegermos expulsando o drama humano do sofrimento. 

Dessa forma, qualquer tentativa de controle torna o “controlado” culpado ou suspeito de sê-lo. Quem iria querer se casar com alguém que olha com desconfiança e não como um presente e promessa de uma grande vida? Como é possível que a promessa de amor e fidelidade feita diante de Deus seja posta à prova, uma espécie de detector de mentiras que nos permitirá saber se nosso cônjuge está mentindo – porque o que está claro é que já lhe negamos nossa confiança? A confiança pode ser um valor a ser guardado se a colocarmos à prova? 

A verdade é que não nos casamos “até que o outro nos engane”. Talvez a promessa de amor que fazemos ao nos casarmos signifique aceitar a liberdade do outro, mesmo que ela produza sofrimento, porque prometemos respeitar sua liberdade, mesmo quando ela pode causar o maior dano. Não há mal maior do que aquele causado a si mesmo pelo mau uso de sua liberdade.

Por outro lado, acreditamos realmente que um teste de fidelidade baseado no controle ou na espionagem eliminará o mal do coração humano, se nele se aninhar? Você pode espionar se quiser, também pode mentir se quiser, ser infiel se quiser. Mas não pode escapar das consequências que essa traição “livre” terá na vida de quem lhe deu sua confiança. Você pode até esconder a verdade de todos, mas o que não pode fazer é mentir para si mesmo ou para Deus.

Há liberdade, mas também consciência e perdão. A vida é uma aventura que tem a ver com o “eu faço” todos os dias. Nada nos impede, nem nos impede de dar o nosso “sim”. Nunca é um sim ao mal, mas apesar do mal. Um sim que denuncia o mal sem abrir a porta do seu coração odiando o maligno. É um ato de amor, que tem o poder de vencer o mal sem se deixar confundir por ele, porque a escolha entre o bem e o mal é a batalha travada pelo nosso coração.

Em suma, é um caminho de crescimento em liberdade e confiança. Estamos conscientes de que o outro é um mistério que não cumprirá nossa felicidade e que também participa como nós e conosco do Mistério Redentor. A confiança pode ser quebrada, mas este caminho para a plenitude da qual o outro é sinal, está repleto da esperança de que Aquele que faz novas todas as coisas conhece nossos corações. Um coração que ninguém, nem mesmo o mais leal ou desleal dos cônjuges, está autorizado a roubar, julgar, rastrear ou domar. 

Só Deus conhece o fundo do nosso coração e só ele o guarda constantemente, porque o seu amor infinito nunca nos abandona, o único amor que nunca falha, o único amor que nunca pode ser quebrado.

O casamento precisa de fé e esperança, não apenas de amor. E a fé no marido ou na esposa, a confiança, não pode ser exigida, não pode ser localizada em nenhuma aliança de casamento tecnológico ou noGoogle Maps. 

A confiança é fruto de uma liberdade que se dá, dia após dia, para que o outro encontre junto conosco o caminho que conduz à salvação. A fé pode ser frágil, mas a esperança vai atravessar os mundos, levando consigo as outras duas irmãs mais velhas (fé e amor). Será ela quem fará as outras duas andarem e a que faz o mundo inteiro girar.

Nem a tecnologia mais avançada do mundo pode nos tornar mais fortes nesta certeza: o Amor é a única promessa grávida de Esperança, uma fonte viva para todos os homens até o final dos tempos.

Tags:
CasamentoConfiançamaridoMulhertecnologia
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