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Por que estamos falando demais, com muitas pessoas e o tempo todo?

SOCIAL

Rawpixel.com | Shutterstock

Daniel R. Esparza - publicado em 16/02/22

A vida on-line contemporânea tem tudo a ver com comunicação ininterrupta. Mas nós não fomos feitos para falar tanto

Em 1991, o REM lançou seu sétimo álbum de estúdio (Out of Time), apresentando o clássico hit “Losing My Religion”. Na música, Michael Stipe canta alternadamente “I’ve said too much” e “I have not said enough” (“Falei demais” e “Não disse o suficiente”)

Essa relação tensa entre undersharing (não dizer “suficiente”) e oversharing (dizer “demais”) é típica de uma das formas dominantes da vida social contemporânea: as redes sociais on-line. 

Os usuários de mídia social são constantemente (e até implacavelmente), incentivados a “falar” on-line o máximo possível. Estamos falando demais, para muitas pessoas, o tempo todo.

Como explica Ian Bogost, conversas on-line constantes são “do interesse dos gigantes da tecnologia”. As empresas de internet têm um nome distinto para esse desejo persistente de interagir – eles chamam isso de “engajamento”. As métricas usadas por essas plataformas para estimular a interação entre os usuários (“curtidas”, “comentários” e “compartilhamentos”) são o índice de uma nova “virtude” social: a popularidade on-line .

A mídia on-line, continua Bogost , “dá a cada pessoa acesso a canais de comunicação anteriormente reservados a grandes empresas. Começando com a world wide web na década de 1990 e continuando no conteúdo gerado pelo usuário das mídias sociais da década de 2010, o controle sobre o discurso público passou de organizações de mídia, governos e corporações para cidadãos comuns.” 

É verdade que poder compartilhar e publicar livremente (quase) todo tipo de material audiovisual parece uma bênção. E é, em grande medida. No entanto, lembra Bogost, “recebemos também um depósito de lixo tóxico” destinado a despertar os piores medos e sentimentos das pessoas.

Além disso, a facilidade com que as conexões podem ser feitas (através de um simples “pedido de amizade”) significa que qualquer postagem pode chegar virtualmente a qualquer lugar e a qualquer pessoa, com uma pequena ajuda do algoritmo. A maneira como as mídias sociais fazem amigos próximos parecerem conhecidos ou até estranhos (e vice-versa, pois todos estão agrupados indistintamente como “amigos” ou “seguidores”). Isso torna o processo de compartilhamento muito mais fácil do que realmente reservar um tempo para se encontrar alguém IRL – (“In Real Life”, ou seja, “na vida real”).

A capacidade de “fazer amizade” on-line se tornou um dos principais problemas das mídias sociais. A vida on-line acabou se tornando uma questão de acumular conexões e mantê-las “engajadas”, conversando constantemente umas com as outras. Antes que essas ferramentas on-line fossem tão amplamente disponíveis, as conversas ocorriam com menos frequência, com consideravelmente menos pessoas, em cenários específicos, a maioria deles intimamente relacionados à vida cotidiana. 

A pessoa comum, Bogost lembra ao leitor, tinha um punhado de conversas por dia, e o maior grupo com que alguém teria a chance de falar era, talvez, numa recepção de casamento, “algumas centenas de pessoas no máximo”.

Um meme cristão bastante famoso diz que “o homem que dividiu a história em duas tinha apenas doze seguidores”. Outro, no mesmo espírito, diz que “ninguém fala sobre o milagre de Jesus de ter doze amigos íntimos na casa dos 30 anos”. Ambas as piadas pertinentes… 

De acordo com Robin Dunbar, professor emérito de biologia evolutiva da Universidade de Oxford, embora possamos desenvolver realisticamente até 150 vínculos frutíferos e até significativos, temos nossos relacionamentos mais íntimos com cerca de cinco a 15 amigos mais próximos. Assim, os 12 de Jesus estão na média. 

Claro, podemos manter redes muito maiores (pense em seus 400 “amigos” do Facebook), mas muitas dessas conexões são certamente menos significativas. O tipo de “conversas” que temos com elas raramente é relevante – e muitas vezes abertamente hostil. Basta pensar naquele “amigo” do Facebook que está sempre “errado” sobre algo que você acha (não, que você sabe ) que você está “certo”.  

Como lembra Jenny Gross, Dunbar teorizou que os humanos não poderiam ter mais do que cerca de 150 relacionamentos significativos. A medida ficou conhecida como Número de Dunbar. Em sua pesquisa original, Dunbar estudou primatas (o mais social dos animais) e determinou que o tamanho do neocórtex, a parte do cérebro responsável pelo pensamento consciente, se correlacionava com o tamanho dos grupos em que viviam.

É verdade que a vida contemporânea exige uma rede aparentemente ininterrupta para atender a algumas de suas necessidades (até mesmo vitais). Mas também podemos manter relacionamentos significativos, tanto on-line quanto off-line, além da mera sede de “engajamento”. Bogost explica que “o evangelho do engajamento induziu as pessoas a confundir o uso do software com a realização de conversas significativas – ou mesmo meramente bem-sucedidas. Um tuíte amargo que produz uma acrimônia caótica de alguma forma foi interpretado como um discurso on-line bem-sucedido, em vez de um sinal de seu fracasso óbvio”.

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O jejum de curtidas pode nos ajudar a dar ao software o que pertence ao software e às pessoas o que pertence às pessoas.

Este é um sinal do que o estudioso de mídia Siva Vaidhaynathan, diretor do Centro de Mídia e Cidadania da Universidade da Virgínia, chamou de “a Googlização de tudo” e a “Desconexão do Facebook”. Em suma, Vaidhaynathan explica que plataformas de tecnologia como o Facebook assumem que merecem uma base de usuários medida em bilhões de pessoas. Para ser preciso: 2,2 bilhões de pessoas têm contas no Facebook. “Mas nenhum de nós pode realmente se comunicar com 2,2 bilhões de pessoas”, mesmo que pensemos que merecemos tantos seguidores. Nem mesmo o próprio Facebook, que continuamente se desculpa por seus delitos ao observar que é impossível controlar efetivamente uma população tão grande e impensável. 

Então, o que devemos fazer para evitar essa armadilha de (des)comunicação? A resposta, concordam estudiosos, é relativamente direta. É preciso separar o trigo on-line do joio digital: o que parece ser “bom” para a plataforma não é necessariamente o que é bom para as relações humanas. Menos postagens e compartilhamentos podem, de fato, levar a uma vida mais significativa, tanto on-line quanto off-line, à medida que se reaprende a discernir o que é realmente importante e o que não é.

Isso implica se afastar do botão “curtir” do Facebook. “Durante muito tempo”, lembra Vaidhaynathan, “o Facebook não permitia nenhuma interação além dos polegares para cima. Eles pensaram que incluir um botão ‘não gostei’ encorajaria más vibrações. Então eles devem ter testado e descoberto que sua suposição não se sustentava, porque eles decidiram introduzir um conjunto muito controlado de ‘reações’ do tipo emoji. Mas essas reações foram afinadas para poder medir nosso humor.” 

No entanto, os sentimentos e relacionamentos humanos são muito mais ricos e não podem ser reduzidos às sete emoções codificadas do Facebook (“curtida”, “amor”, “força”, “haha”, “uau”, “tristeza”, “raiva”). E quanto ao medo, nojo, vergonha, timidez, culpa, interesse ou desprezo? 

De fato, a simplificação excessiva das expressões on-line simplesmente não corresponde à complexidade da vida humana, e sua difusão achatou a qualidade de nossas interações humanas em geral. O jejum de “curtidas” pode realmente nos ajudar a dar ao software o que pertence ao software e às pessoas o que pertence às pessoas.

Tags:
ComunicaçãoInternetRedes sociais
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