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Como faço para amar meu marido quando ele se tornou insuportável aos meus olhos?

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Silvia Lucchetti - publicado em 22/02/22

"Só se eu experimentar que Cristo vive em mim, que já não sou eu que vivo, mas Ele que vive em mim, então posso dar a minha vida pelo outro. Porque no fundo só tenho vida se a der". Nossa entrevista com o padre Ricardo Reyes Castillo

Em seu novo livro, (Ricominciamo da “per sempre”Editora Cantagalli) o padre Ricardo Reyes Castillo tenta ajudar os casais em crise.

A crise é ocasião de graça porque é tempo de re-decidir a nossa vida. É um momento em que percebemos alguns sintomas dentro de nós que nos dizem que algo não está indo bem: é um sinal de alarme, há algo em seu equilíbrio interior que não “funciona”. Muitas vezes nas crises culpamos superficialmente o sintoma, o desconforto que estamos sentindo, como se fosse o problema. Na realidade, a crise é o sintoma de algo muito mais profundo. Portanto, é a crise que pode nos ajudar a parar, a rever profundamente nossa existência, a nos reconhecer e poder decidir como queremos reconstruir nossa vida.

O que o Papa Francisco chama de conflito, eu leio como a soma total de todas aquelas feridas que causamos um no outro. Feridas “desnecessárias”. Infelizmente, sempre temos que encontrar um culpado. Tenho a experiência de muitos casais que acompanho, onde por exemplo o marido chega e diz: “Eu realmente não acredito nas coisas que eu disse a ela”. Ela depois também diz: “Eu realmente não acredito nas coisas que eu disse a ele”. E então por quê? Porque naquele momento, quando alguns ataques tocaram nossas entranhas, nossas feridas primordiais, aí não conseguimos nos controlar e podemos ferir o outro até de maneira muito profunda. Acho que é precisamente isso que devemos evitar em todos os sentidos.

Não existe receita no casamento, todos somos únicos. Nos primeiros anos de casamento, há dificuldades em se conformar em conviver um com o outro, com suas inconveniências, com suas respectivas famílias de origem. Além disso, há decisões a serem tomadas sem antes ter falado sobre elas de forma profunda: sobre as crianças, sua educação, dinheiro… mas também coisas simples, onde se passa o Natal, por exemplo. E as tensões são sempre criadas.

O curso pré-nupcial deve abordá-las, deve levar os noivos a se confrontarem. Mas também é importante que os casais se enfrentem questionando-se, mesmo entre casais de amigos, com o objetivo de se ajudarem. Mas o problema hoje é a solidão. Os casais estão sozinhos, estamos todos sozinhos, e no final nosso momento de confronto com quem é? Com quem nos comparamos? Quem nos ajuda? Sempre digo aos cônjuges que me ajudam a conduzir o curso pré-nupcial que o mais importante é se tornar um ponto de referência para os casais.

Uma vez recebido o sacramento, os esposos estão sempre dentro desse sacramento. É muito importante lembrar que o sacramento deve ser vivido e precisa de um apoio fundamental: antes de tudo, participar da Eucaristia. A Eucaristia é o sacramento no qual nos unimos a Cristo, tornamo-nos um com Ele. Como posso amar a mulher que Deus colocou ao meu lado? Como posso amar o homem que Deus colocou ao meu lado quando ele me incomoda? Só se eu tiver algo muito maior dentro de mim. Se realmente experimento que Cristo vive em mim, que não sou mais eu que vivo, mas Cristo que vive em mim, então posso dar a minha vida pelo outro. Porque no fundo só tenho vida se a der. Digo-o também como sacerdote, o maior risco que vivo todos os dias é o de querer defender-me, de não querer sofrer, de querer ter meus espaços, meus confortos. Mas Deus não nos deu vida para estarmos confortáveis, Deus nos deu vida para nos doarmos e viver. E o casamento é uma forma privilegiada de ter essa experiência. Mas muitas vezes o maior risco que corremos é ficar reivindicando nossos direitos.

Uma das coisas que mais está em crise no casamento é a sexualidade. A pornografia se tornou uma praga, tanto que afeta a vida de um casal e faz as pessoas acreditarem que o prazer só pode ser alcançado por meio de práticas transgressoras. Você sente a necessidade de transgredir para sentir prazer, mas qual é o verdadeiro problema? A pornografia é uma droga usada para anestesiar uma dor muito profunda ao perder de vista o sentido autêntico da sexualidade. Esse doar-se por amor, que é o que a vida nos oferece.

É verdade que a sexualidade está ligada ao prazer, mas é igualmente verdade que é uma dádiva de amor ao outro: é olhar para ele, ver a sua necessidade, pensar nele. Se eu vivo isso só para mim, eu afasto o outro. Se eu vivo para ele/ela, se eu não vivo mais para mim, mas para o outro, é completamente diferente. Isto é o que Cristo faz conosco, você vai à Eucaristia e Cristo se doa, e às vezes você nem percebe que Ele olhou para você, que Ele se doou, Ele se uniu a você. Mas Ele continua a se dor e esta é a maravilha. É isso que transforma nosso coração.

Normalmente eu primeiro falo com eles juntos, uma primeira reunião em que eles se abrem, depois os acompanho individualmente e dou algumas ferramentas. O maior risco é que, quando os filhos nascem, tudo vira de cabeça para baixo. A mulher perde de vista o homem, os filhos passam a ser o centro de tudo, mas o mais comum é que ambos se percam de vista. Sempre repito aos casais: lembre-se, existe um egoísmo saudável, procure manter seu espaço também, você também deve esculpir momentos para as coisas que você gosta, guarde algo para você também. Porque é essa “respiração” que nos permite alimentar os outros.

No avião eles sempre te dizem: primeiro coloque a sua máscara, para então poder ajudar e colocar a máscara na criança. A mesma coisa na vida, a primeira coisa é que eu tenho que recuperar o oxigênio. Eu mesmo, como padre, devo ter um momento para mim: é tão importante que recentemente me permiti uma hora por semana para fazer um curso de pintura. Esse é um momento para mim que me dá um impulso para depois me doar aos outros. Da mesma forma que não poderia me doar verdadeiramente ao meu próximo se não vivesse um momento exclusivo para rezar a sós ao Senhor, preciso estar a sós com Ele. Se estou com Ele, então posso me doar.

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