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Qual é a importância de identificar o seu temperamento?

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Julia A. Borges - publicado em 11/07/23

Somos nosso maior inimigo, e a verdadeira causa de sucessivas derrotas deve-se muitas vezes ao fato de não nos conhecermos

Todo o cristão sonha em se juntar por completo a Cristo Jesus ainda neste mundo e para isso não basta apenas arrepender-se dos pecados e ser perdoado através do sacramento da confissão. É necessário percorrer o caminho da Santidade e para uma experiência completamente válida, deve-se passar pelas veredas do autoconhecimento, porque só seremos capazes de regozijar ao verdadeiro Amor divino, quando nos vencermos plenamente.

Qualquer batalha que se entra, uma coisa se faz altamente crucial: conhecer o inimigo, conhecer as artimanhas e as armas de quem ou do que se está a lutar; e a trajetória rumo à Santidade possui um grande inimigo, uma grande barreira que muitas vezes leva à desistência do objetivo final. Este entrave é, senão, nós mesmos.

Somos nosso maior inimigo, e a verdadeira causa de sucessivas derrotas deve-se muitas vezes ao fato de não nos conhecermos. Há, entretanto, muitos que batem no peito e se acham conhecedores de si, mas é bem provável que justamente esses possuem ínfimo conhecimento a seu próprio respeito. Uma análise interessante: já pararam para refletir que nunca nos vimos? Nunca olhamos para nós mesmos? Você já olhou o seu reflexo, a sua imagem, fotos e vídeos, mas nunca, efetivamente, viu seu rosto. E quantas vezes vivemos situações-limites nas quais agimos por um impulso de preservação ou de proteção e que, até então, tal atitude nunca havia sido realizada? Sim, somos incógnitas.

Autoconhecimento

O caminho da Santidade passa pelo autoconhecimento a fim de tentarmos vencer nosso ego, nossos medos, fraquezas e nosso temperamento. As propriedades temperamentais têm tido bastante enfoque nos últimos anos, mas há um grande descomedimento em acreditar que ao se enquadrar em um determinado tipo temperamental, nada mais pode ser feito, estando o indivíduo fadado e sujeito às maravilhas e infortúnios daquele temperamento. 

O fato de não nos conhecermos é justamente pela razão máxima de sermos altamente complexos, portanto, não cometa o erro de acreditar que o tipo X, Y ou Z de temperamento irá defini-lo, entretanto, entender a dinâmica natural das raízes das nossas ações e reações pode ajudar, ainda que de maneira modesta, no caminho rumo à Santidade.

Segundo o Padre Paulo Ricardo em seu curso sobre este assunto, a doutrina dos temperamentos é de origem antiga. Seu antecedente remoto é o médico grego Hipócrates, que no séc. IV a.C. formulou a teoria dos quatro humores ou fluidos corporais. Para Hipócrates, haveria no corpo humano, em proporções mais ou menos iguais, quatro tipos de líquidos: o sangue; a bílis negra; a bílis amarela e a fleuma, e as doenças físicas seriam consequência de um desequilíbrio entre eles. 

Disposições

Essa ideia foi retomada séculos mais tarde, já em época cristã, pelo médico romano Galeno, para quem os humores, além de sua função fisiológica, estariam vinculados também às disposições emocionais de cada indivíduo. Desta forma, uma maior proporção de sangue, por exemplo, conformaria um temperamento sanguíneo, caracterizado por ser alegre, bem-disposto etc., ao passo que uma maior concentração de bílis negra daria origem a um temperamento melancólico, predisposto à introspecção e à tristeza. O temperamento, por conseguinte, não seria mais do que o resultado da mistura dos humores no organismo, um dos quais, por sua maior proporção em relação aos outros, marcaria as grandes tendências reativas da pessoa. 

Esses tipos de personalidade se notam logo na primeira infância, época da vida em que a pessoa, mais ou menos livre das influências da educação, da cultura, dos hábitos bons e maus que todos vamos adquirindo no correr dos anos, manifesta mais claramente suas predisposições características, isto é, o “tempero” próprio do seu modo de ser e sentir, de agir e reagir. 

Seja como for, o fato é que todos possuímos algumas tendências herdadas, inscritas em nossa própria biologia, o que não implica de forma alguma que delas sejamos reféns, pois também é certo e evidente que é possível nos aproveitarmos delas para aprimorar o nosso caráter e — é o que aqui mais nos interessa —  crescer espiritualmente. É conveniente conhecer o nosso temperamento a fim de trabalhar ao nosso favor mesmo em situações delicadas, mas é errôneo pensar estar condenado a não ser santo por ter um determinado temperamento.

Temperamentos

São quatro os temperamentos, em função do grau de excitabilidade e de permanência das impressões recebidas: de um lado, estão os coléricos e sanguíneos; de outro, os fleumáticos e melancólicos. Para identificar o seu temperamento não há outro método senão a experiência, isto é, a observação direta dos nossos grandes traços comportamentais, sobretudo na infância, e a partir daí as respostas para estas duas perguntas: 

1ª) Quanto à excitabilidade. Quando sou afetado por algo externo ou me lembro de um afecção passada, as emoções irrompem dentro de mim pronta e intensamente?

2ª) Quanto à durabilidade. Uma vez surgida a emoção, ela permanece por muito tempo, de forma profunda, ou desvanece logo em seguida?

Em função da resposta que dermos a estas duas perguntas, com um sim ou um não, teremos quatro combinações possíveis, correspondentes à divisão tradicional dos temperamentos. 

Assim sendo, se à primeira pergunta respondemos sim, então é provável que sejamos ou coléricos ou sanguíneos de temperamento, ou seja: diante de uma impressão qualquer (por exemplo, uma injustiça ou afronta), a nossa reação tende a ser forte, intensa e imediata. O colérico e o sanguíneo, portanto, se caracterizam fundamentalmente por um alto de grau de excitabilidade.  Mas se a nossa resposta é negativa, então somos provavelmente ou melancólicos ou fleumáticos, temperamentos marcados, ao contrário dos outros dois, por uma baixa excitabilidade, por reagirem com pouca intensidade às impressões recebidas e, por geralmente, não responderem instantaneamente, logo após o estímulo.

A segunda pergunta, por sua vez, diz respeito à duração das impressões. Desta forma, se lhe respondemos não, é provável que sejamos sanguíneos ou fleumáticos, ou seja, as impressões tendem a durar pouco em nós, sem deixar vestígios nem nos afetar de maneira muito profunda. Se respondemos sim, é porque somos ou coléricos ou melancólicos, nos quais permanece por longo tempo a impressão recebida.

Com base nas aulas do Padre Paulo Ricardo e também nos ensinamentos de Antonio Marín, é possível conferir algumas características de cada temperamento:

  • Colérico – É facilmente excitável, sua reação é intensa e exuberante e a impressão tende a durar muito tempo. Suas emoções são fortes e profundas, como um fogo que se acende rápido, se expande com violência e não se deixa apagar.
  • Sanguíneo – Como o colérico, é facilmente excitável, reage também com intensidade, mas tende à superficialidade, quer dizer, nele a impressão costuma durar pouco. A resposta é rápida, mas logo se esvai, como um fogo que se acende de imediato, impetuoso e ardente, mas que se apaga logo em seguida. É o típico “fogo de palha”.
  • Melancólico – É pouco excitável, sua reação é, por via de regra, pouco intensa, mas muito profunda e perdurável. Sua resposta é lenta, mas deixa na alma um sulco permanente. É como uma fogueira difícil de acender, mas que, quando acesa, dificilmente se apaga. Por isso, tende a não se esquecer, às vezes por anos a fio, de uma ofensa ou desentendimento ocorrido na infância ou na adolescência.
  • Fleumático – Pouco ou quase nada excitável, razão por que é de pouca intensidade a sua reação, quase sempre volátil e superficial. É como um fogo que custa acender e, mesmo depois de aceso, se apaga com a primeira lufada.

Identificando e entendendo nossos gatilhos, a chance de reagirmos perante as situações diminui e, assim, começaremos a realizar as ações de maneira pensada e analisada com cautela. A frase socrática “conheça-te a ti mesmo” é sempre válida para compreendermos a dimensão das nossas capacidades e incapacidades e entendermos a graça diária que recebemos de Deus.   

Referências

Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana. 4ª ed., Madrid: BAC, 1962, n. 505.

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