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A virtude NÃO está no meio

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Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 13/08/23

Nesses tempos de polarização exacerbada, a moderação não deixa de ser fundamental. Mas ela é insuficiente. Entenda:

O título deste artigo talvez escandalize a alguns… Afinal, sempre ouvimos exatamente o contrário – “a virtude está no meio”, diziam os sábios gregos e continuamos a repetir exaustivamente em nossa sociedade. Aliás, poucas frases da filosofia grega foram incorporadas à nossa mentalidade quanto essa. Ela é válida como um alerta contra os extremismos, algo que nos soa como “todo extremismo é um defeito”. Mas, lamento dizer, sua validade acaba aí.

Numa época de polarizações exacerbadas, em que parecemos perder o bom senso e nos perdermos em extremismos insensatos, um convite à moderação, condenando o extremismo, é sem dúvida alguma útil. Os extremos ideológicos, o fanatismo político ou religioso, as manias que se tornam vícios são posições a se evitar, sem dúvida. Contudo, a moderação pode não ir além de uma prudência que evita o pior, mas não nos ajuda a chegar no melhor… 

E Deus vomita os mornos

Deus mesmo parece não ser admirador dessa frase, “a virtude está no meio”. No Apocalipse (3, 15-16), a comunidade cristã de Laodiceia é assim admoestada: “Conheço as tuas obras, sei que nem és frio, nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei”… Parece que os mornos não são exatamente modelos de virtude para Deus. Pensando, sobre outro ângulo, Deus gostaria mais que fossemos extremamente santos ou apenas santos “meia-boca”? Bento XVI, numa homília feita na Alemanha, disse “agnósticos que, por causa da questão de Deus, não encontram paz e pessoas que sofrem por causa dos seus pecados e sentem desejo dum coração puro estão mais perto do Reino de Deus de quanto o estejam os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato sem que o seu coração seja tocado pela fé”. Não é, evidentemente, uma apologia aos maus, mas sem dúvida é uma dura admoestação aos mornos.

Sem dúvida a virtude, para os cristãos, está na santidade e quanto mais nos aproximamos dela, melhor para nós. Mas todos nós já ouvimos alguém se referir de forma pejorativa a alguém que é “santo demais”. Pessoas muito boas se deixam enganar, perdem chances na vida, são instrumentalizadas pelos outros. Para a mentalidade comum, mesmo a bondade não é um valor a ser levado ao extremo. Mas aqueles que se orientam pela mentalidade comum não depositam sua esperança e sua força na graça de Deus, não fizeram a experiência de serem amparados e protegidos por Ele — assim, se deixam determinar pela aparente fragilidade dos bons.

Mas, continuando nossa reflexão, não podemos pensar que os santos, para serem realmente bons, são aqueles que assumem uma posição moderada em todas as situações? Quem lê as biografias dos santos com frequência se depara com gestos totalmente extremados, que em nada condizem com a moderação. Aliás, uma característica de suas vidas é que muitas vezes Deus tem que vir em seu socorro para salvá-los das consequências de um certo extremismo que parece desafiar o bom senso.

Mas, nem por isso, é verdade, qualquer extremismo é querido por Deus. A maior parte dos extremismos que vemos em nosso cotidiano, desde ideológicos até físicos (como dietas e exercícios desequilibrados) são objetivamente ruins e nos distanciam de Deus. Então, olhando sob esse ângulo, onde está a virtude?

O discernimento sempre necessário

A virtude não está em algum ponto dentro de uma escala que vai de um extremo a outro. Nosso problema não se resolve procurando uma posição ideal em algum lugar da escala. Nosso verdadeiro problema é discernir, para abraçar o que é bom e rejeitar o que é mal – estejam lá onde estiverem. Como é dito na 1ª Carta aos Tessalonicenses (5, 21): “Examinai tudo: abraçai o que for bom e guardai-vos de toda a aparência do mal”. A falha da maioria dos extremismos humanos é que levam a pessoa a abraçar tudo que está num extremo e rejeitar tudo que está do outro lado, sem se perguntar o que é bom e o que é mau. No final, a pessoa acaba frequentemente se enredando nos aspectos maus e perdendo os bons.

Sem dúvida, não é bom comer demais nem fazer uma dieta que nos enfraquece até adoecermos. Comer moderadamente é bom, mas comer sabiamente, combinando os alimentos certos com as quantidades certas é melhor. A verdadeira virtude não é apenas comer moderadamente, mas sim comer com sabedoria. Nenhum ser humano é perfeito e todas as nossas ideias são falíveis. Assim, qualquer posição político-ideológica deve ter alguns aspectos certos e outros errados. Aquelas extremistas costumam perder a razão e ficar mais cheias de erros do que de acertos, mas a pessoa virtuosa saberá reconhecer e valorizar os aspectos positivos onde quer que estejam – bem como renegar os aspectos negativos também onde quer que estejam.

A virtude está, portanto, no discernimento justo – e esse se torna mais difícil quanto mais nossa sociedade se enche de esquemas ideológicos e nós nos recobrimos de uma certeza arrogante que não tem nada de divina, mas é muito humana e até diabólica. O virtuoso é sempre humilde e está em busca do melhor discernimento. Não condena nenhuma posição de imediato e, em todas, procura o que têm de bom e busca evitar o que têm de mau.

Um exemplo em nossos debates cotidianos

Essa reflexão começou por conta de um debate sempre presente em nossa sociedade (infelizmente): a polícia deve ser mais agressiva para coibir o crime ou não? Sempre encontramos gente escandalizada com as mortes causadas por policiais, que muitas vezes vitimam pessoas sem passagem pela polícia ou que cometeram apenas pequenos delitos; bem como aqueles escandalizados com a conivência com os criminosos, uma bondade insensata que coloca tanto a sociedade quanto os policiais indefesos diante do crime. Seriam duas posições extremas insensatas. O mais provável, inclusive, é que a maior parte da população não apoia nem uma posição, nem a outra. Contudo, os moderados frequentemente acabam sendo atraídos por um polo ou outro, motivados pela propaganda dos extremistas.

Seria uma solução uma polícia moderadamente violenta? Não. Um policial pode encontrar um ladrão drogado e armado, extremamente perigoso e letal, bem como um ladrão adolescente e pobre, que realmente aderiu ao roubo por falta de orientação e amparo. Manter uma posição “moderada”, igual para as duas situações, não seria adequado. O policial poderia correr um sério risco pessoal diante do ladrão ameaçador e ser truculento com o adolescente que precisa de acolhimento. A posição correta varia conforme a situação. O importante é que o policial tenha formação moral, treinamento e equipamentos adequados para discernir cada caso e agir da forma mais eficiente possível.

Um olhar integral e um discernimento justo

Nesses tempos de polarização exacerbada, a moderação não deixa de ser fundamental. Mas ela é insuficiente. Somos chamados a ter um olhar integral, que procura abarcar o maior número possível de fatores interferindo na realidade – e a partir daí discernir o que é mais adequado. Nesse processo, temos que conhecer cada um dos lados do debate, com um desejo sincero de entender a todos, abraçando o que tem de certo e rejeitando o que tem de errado. A certeza cristã não é um juízo arrogante que condena os adversários e superestima os aliados. Pelo contrário, é um discernimento humilde capaz de encontrar o bem e renegar o mal onde eles estiverem, que se abre num convite amigo, ainda que realista, a todos.

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