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A inteligência artificial e suas repercussões na espiritualidade 

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Ground Picture | Shutterstock

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Igor Precinoti - publicado em 12/09/23

Se as tecnologias são capazes de simular a interação humana ao ponto de existirem monges robôs, o que vai diferenciar máquinas de seres humanos? Será que, no futuro, robôs irão celebrar Missas?

No caminhar da humanidade, muitas foram as revoluções tecnológicas que mudaram o comportamento e o modo de vida das pessoas. Desde o controle de fogo até o computador pessoal, diversas foram as transformações que a humanidade passou decorrentes das facilidades e das potencialidades de uma nova tecnologia. Hoje, a inteligência artificial vem se mostrando uma tecnologia que está revolucionado o dia a dia das pessoas e que promete transformações sociais ainda muito maiores. 

A inteligência artificial é o campo da ciência da computação que estuda e desenvolve sistemas capazes de realizar tarefas que normalmente requerem a inteligência humana, tais como aprender através de dados e tomar decisões com base nas informações disponíveis. Mas essa tecnologia não é nova, seu desenvolvimento começou na década de 50, teve como marco histórico um famoso jogo de xadrez ocorrido em 1997, quando, pela primeira vez, um computador (chamado Deep Blue) ganhou do campeão mundial Garry Gasparov, e agora está se popularizando com o Chatgpt, um modelo de linguagem baseado em inteligência artificial capaz de desenvolver uma variedade de tarefas e habilitado com Processamento de Linguagem Natural (NLP) capaz de permitir uma comunicação natural, simulando outro ser humano.  

O uso da inteligência artificial já é comum, mesmo que inconscientemente. Quase todas as pessoas que utilizam celulares e eletrodomésticos já tiveram contato com algum tipo de inteligência artificial, seja em jogos eletrônicos ou tradutores. Agora, é relativamente comum o uso de inteligência artificial em hospitais e escritórios de advocacia, mas o recurso a esta tecnologia em um Templo Budista levou a discussão a um nível bem diferente.  Em 2019, em um Templo localizado em Kyoto, no Japão, foi instalado um Monge Robô chamado Mindar, em seu banco de dados estão armazenadas as escrituras sagradas e práticas espirituais budistas e ele ainda é capaz de interagir com as pessoas, guiar práticas meditativas e responder a perguntas. 

Contudo, até onde isso vai chegar? Se as tecnologias são capazes de simular a interação humana ao ponto de existirem monges robôs, o que vai diferenciar máquinas de seres humanos? Será que, no futuro, robôs irão celebrar Missas?!

As inteligências artificias conseguem detectar microexpressões faciais e padrões em uma conversa identificando sentimentos e simulando empatia, elaborar textos e poemas por meio de uma linguagem idêntica à humana e ainda podem inventar músicas e desenhos artísticos de maneira criativa e original. Linguagem, criatividade, empatia, características intrínsecas, e até então exclusivas, do ser humano agora são compartilhadas por máquinas. 

Em 1980, um filósofo americano chamado John Searle, observando o desenvolvimento das tecnologias se debruçou nestas questões e elaborou uma teoria: ela é chamada “Teoria do chinês no quarto” 

Imagine uma pessoa que não sabe falar nem compreende a língua chinesa dentro de um quarto fechado. Ela somente pode se comunicar com o exterior através de bilhetes por baixo da porta. As pessoas que estão fora do quarto somente falam em chines e não sabem quem está lá dentro. 

Dentro deste quarto existe, no entanto, um manual indicando quais símbolos (caracteres da língua chinesa como ideogramas e pictogramas) ela deve desenhar em resposta aos bilhetes em chinês que ele recebe. Ela não fala com ninguém, somente recebe o bilhete, procura o desenho no manual, mesmo não sabendo o que está escrito (por exemplo “Que dia é hoje?”), e, após encontrar o desenho correspondente, ela desenha a resposta indicada no manual (“Hoje é terça-feira”), e devolve o bilhete respondido. Com o passar do tempo e quanto mais complexa é esta interação, mais as pessoas que estão fora do quarto passam a ter certeza de que o indivíduo, no interior do quarto, é fluente e compreende bem o chinês. Mas o indivíduo lá dentro não faz ideia do que está sendo comunicado. Ele somente segue as regras predeterminadas.

A questão central que Searle propõe, com a teoria “do chinês no quarto”, é a seguinte: por mais que, seguindo as regras do manual, o homem consiga gerar respostas e se comunicar com chineses, será que ele compreende e tem consciência do que está sendo comunicado? O mesmo ocorre com as inteligências artificiais. Por mais que elas estejam especialistas na simulação do comportamento, conhecimento e pensamentos humanos, falta lhes a consciência. As inteligências artificiais conseguem simular (como um símio (macaco), em partes, faz) empatia, linguagem, criatividade, mas nunca terão uma alma espiritual que é a base da consciência humana. 

A alma humana é a parte essencial e imortal da natureza do homem e da mulher. Fonte da vida e da individualidade, a alma é o alicerce da consciência e é a partir dela que surgem as capacidades de pensamento, de raciocínio e de livre arbítrio. A consciência é a voz interior que guia as escolhas morais humanas. 

Por mais que as máquinas sejam capazes de armazenar todas as escrituras sagradas, todos os sermões, textos e livros escritos pelos hagiógrafos bíblicos, santos e doutores da Igreja e por mais que as inteligências artificiais possam explicar e responder diversas questões embasadas por toda esta vasta literatura, falta-lhes a consciência, e é por meio dessa consciência que as pessoas são chamadas a agir de acordo com a sua fé e os princípios espirituais.

Tags:
EspiritualidadeSociedadetecnologia
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