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G.K. Chesterton: por que certos programas de TV são tão chatos

G.K. Chesterton shown on television in a futuristic setting

John Touhey | Aleteia | Image Source for TV - Rosamund Parkinson | Shutterstock

Michael Rennier - publicado em 25/09/23

As pessoas comuns passam momentos muito mais emocionantes do que os heróis que você vê nos programas de TV

A maioria dos programas de TV – inclusive os os dramas mais sofisticados e de alto tom, que ganham todos os prêmios – é chata.

Nem tudo na TV é chato, com certeza, mas o suficiente para que eu começasse a ficar desconfiado. Algo está errado com a narrativa moderna. Por exemplo, aquela série sobre advogados de cidades grandes que violam a lei de maneira inteligente enquanto tentam justificar a culpa de sua cumplicidade moral? Cheguei na metade da série e desisti.

Isso faz de mim um filisteu? Provavelmente. Isso significa que tenho dificuldade em apreciar a arte moderna? Quase certamente. Talvez a questão esteja inteiramente dentro de mim. Talvez eu seja o único com sensibilidades defeituosas. Prefiro desligar a televisão para reler O Senhor dos Anéis, histórias de santos ou contos de fadas antigos – ou até mesmo assistir novamente a seriados dos anos 80.

Por muito tempo, me forcei a assistir televisão. Afinal, tantos comitês de premiação não poderiam estar errados. Mas enquanto assistia, não consegui deixar de perder o interesse. Depois que isso aconteceu várias vezes, comecei a me perguntar o que estava acontecendo, que qualidade específica eu não conseguia achar atraente.

Histórias que não levam a lugar nenhum

Chesterton, em seu livro Ortodoxia, sugere a resposta. O problema da narrativa moderna é que ela se concentra esmagadoramente no ego humano. As histórias agora tendem a estar cheias de anti-heróis, rebeldes contra o sistema, pessoas com algo profundamente errado com elas mesmas. A maioria das tramas vai do nada para lugar nenhum; nenhum progresso é feito. A questão toda é um mergulho psicológico profundo nas reviravoltas supostamente fascinantes da mente humana, como complicamos moralmente as nossas decisões antes de suportarmos a culpa ou de fazermos justificações ambíguas.

O resultado de toda esta interioridade é um mundo em que o anti-herói, a pessoa superior ou extraordinária em que a história se centra, percorre uma vida única. Não há dragões a serem combatidos e vencidos. Existe apenas uma introspecção interior sem fim. Cada pessoa é o herói da própria história. Cada herói é um Prometeu sofredor tentando encontrar sentido em um mundo sem sentido.

Como tornar o mundo menor

Mas, como digo o tempo todo aos meus paroquianos, o pecado é chato. Conflito moral, autojustificação, todas as maneiras pelas quais nos rebelamos contra Deus e tentamos assumir o controle de nossos próprios destinos tendem a nos fazer sentir maiores em nossa própria opinião, mas também tornam o mundo menor. Parafraseando Groucho Marx, um mundo em que meu ego é a coisa mais fascinante não é um mundo em que eu queira viver.

É por isso que Chesterton diz que as histórias verdadeiramente emocionantes são aquelas que nos tornam menores, para que o mundo possa tornar-se maior. Se as histórias não são definidas pelas nossas inclinações e obstinação pessoais, de repente a magia volta a entrar em tudo. O mundo se torna um lugar emocionante e romântico. Esses tipos de história são sobre pessoas comuns – pessoas como você e eu – que encontram um universo extraordinário, que são desafiadas por ele, que se ajoelham diante de sua beleza, que ficam maravilhados com o poder divino que o criou.

Desta forma, as pessoas comuns descobrem a graça. Iniciamos uma jornada heroica e descobrimos que algo novo e extraordinário se desenvolve dentro de nós.

O extraordinário no comum

Chesterton dizia que não há nada mais extraordinário neste mundo do que um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns. A narrativa moderna ignora completamente isso.

As pessoas comuns passam momentos muito mais emocionantes do que os heróis que você vê na TV. 

Chesterton remonta a uma forma mais antiga de contar histórias – os contos de fadas. “Os contos de fadas são coisas inteiramente razoáveis”, escreve ele. Comparado a eles, todo o resto soa ligeiramente falso. Os contos de fadas parecem ser matéria de sonhos, mas, na verdade, contêm ainda mais verdade do que um livro de história. Eles representam a sabedoria comum da humanidade, e é por isso que têm uma qualidade duradoura. Qual de nós não voltou e assistiu aos desenhos animados de contos de fadas que víamos na juventude? Suspeito que muitos de nós apresentamos essas histórias aos nossos filhos.

Como pai, li contos de fadas para meus filhos, não porque os considero infantis. Pelo contrário, leio para eles livros como O Pequeno Príncipe todas as noites porque levo meus filhos muito a sério . Estou apresentando-lhes um mundo cheio de virtudes e desafios, um mundo em que Deus está presente, um mundo em que, se continuarem em sua jornada heroica além dos obstáculos, poderão matar dragões.

Há uma boa razão para que histórias cujo padrão seja um anti-herói sejam chata, mas um conto como O Senhor dos Anéis é a história mais duradoura e popular da nossa geração. O anti-herói não busca nada além de autojustificação. Os hobbits são pessoas normais que lutam pela redenção. Para mim, o último é muito mais emocionante. Chesterton concorda. O mesmo acontece com muitas outras pessoas, ao que parece.

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